Um resumo do painel realizado nesta terça (28), na Rio 2C 2025, maior encontro de criatividade da América Latina, e que foi um presente pra quem ama audiovisual, curiosidades sobre bastidores, protagonismo feminino e quer ver mais mulheres na linha de frente de grandes produções.
A Carol Moreira comandou a conversa com duas potências da Marvel:
- Gandja Monteiro, diretora brasileira-americana, formada em cinema pela NYU e pelo Directing Workshop for Women da AFI. Além de seu trabalho em Agatha Desde Sempre, ela dirigiu episódios de Wandinha, The Witcher, The Chi (Showtime), Dead City, Brand New Cherry Flavor e Vida.
- Mary Livanos começou sua carreira na Marvel como estagiária e hoje é uma das principais produtoras executivas do estúdio, indicada ao Emmy. Trabalhou em grandes títulos como Guardiões da Galáxia Vol. 2, Capitã Marvel, WandaVision, The Marvels e Agatha Desde Sempre.

Desafios técnicos e criativos
As duas falaram muito sobre os bastidores — especialmente dos desafios de trabalhar em séries com efeitos visuais (VFX) pesados, com orçamentos que, mesmo parecendo altos, são cada vez mais apertados. Gandja contou como precisou equilibrar cenas épicas com limitações reais: às vezes era preciso escolher entre uma explosão ou um personagem voando.
E mesmo com toda a estrutura da Marvel, o foco da Gandja sempre foi a emoção da história, o impacto das personagens e seus conflitos internos — não o espetáculo pelo espetáculo. Uma fala dela que marcou foi:
“Se você tá ouvindo explosões no céu e não sente nada, é porque a história se perdeu.”
Ser mulher na indústria
As duas compartilharam experiências de terem que se provar num mercado dominado por homens brancos e mais velhos. Gandja contou que fez um curta sci-fi com 42 cenas de VFX só pra mostrar que era capaz de dirigir ação e efeitos — porque mulher raramente recebe essa chance de primeira. Mary falou sobre como precisou ser “inquestionável”, ou seja, tão boa, tão preparada, que ninguém pudesse duvidar da sua competência.
Elas discutiram também sobre como é importante montar equipes diversas e trazer perspectivas diferentes para a criação — não só a própria, mas de outras pessoas que entendam as personagens que estão sendo representadas.
Personagens femininas e novas abordagens
Sobre Agatha All Along, o foco foi mostrar camadas da personagem, suas dores, traumas e desejos — e como transformar isso em algo emocionante. Elas queriam sair do padrão de “salvar o mundo” e focar no que realmente importa: os relacionamentos, os sentimentos, o impacto real nas personagens.
Gandja compartilhou como imprime sua marca em episódios isolados de séries já estabelecidas, buscando sempre a subjetividade e a experiência interna das personagens, tornando cada episódio uma jornada emocional.
Inclusive, em um dos episódios, Gandja teve que filmar um clipe musical revelando o grande segredo da Agatha em apenas um dia (!) — com figurinos, maquiagens e efeitos práticos. Um verdadeiro caos criativo que exigiu trabalho em equipe e muita garra.
Mary explicou como, nos roteiros e na produção, busca montar equipes diversas e garantir que a autenticidade das personagens femininas seja preservada, influenciando desde a sala de roteiristas até a direção de arte.
O que vem aí?
As duas estão trabalhando juntas na próxima série da Marvel sobre o Visão — que vai continuar os fios narrativos de WandaVision e Agatha All Along, prometendo mais espaço para desenvolvimento de personagens complexos.
A cobrança em cima de mulheres no audiovisual é desigual
Durante a coletiva de imprensa, levantei uma questão que ressoa profundamente com quem acompanha o trabalho do Narrativa Feminina: por que, nas grandes produções, quando um projeto liderado por mulheres não alcança o sucesso esperado, a culpa recai quase automaticamente sobre essas mulheres — algo que raramente acontece com produções comandadas por homens? E como elas enxergam o futuro das mulheres dentro da Marvel, tanto em frente quanto atrás das câmeras, considerando que diversidade é um conceito que exige compromisso contínuo?
Mary Livanos respondeu com firmeza e sensibilidade:
“Estamos criando séries que a gente teria sonhado em ver quando era mais nova. A melhor forma de honrar nossas personagens é celebrá-las o máximo possível e fazer algo que encante a nossa criança interior — e também nossos colegas criativos. Se eu apresento uma ideia e a Gandja faz ‘uuh’, então estou no caminho certo. Às vezes o resultado é ótimo, às vezes não, mas isso nunca deve ser motivo pra parar de criar o que amamos. Também é nosso papel garantir que nossos próprios vieses inconscientes não nos impeçam de fazer o que precisa ser feito, ainda que a responsabilidade não seja só nossa enquanto mulheres em cargos de liderança.”
Já Gandja Monteiro complementou trazendo uma perspectiva sobre oportunidades e imaginação criativa:
“Se a Mary não tivesse se reunido comigo, eu não teria tido a chance de mostrar quem eu sou ou quais ideias poderiam empolgá-la. E é aí que está o problema: quando penso em contratar uma diretora de fotografia, hoje eu já penso nas mulheres que conheço — mas essa nem sempre é a reação automática das pessoas. A forma como mulheres são avaliadas é muito diferente. Vai além de ‘o projeto foi um sucesso ou não?’. É sobre: quem vem à sua mente quando você pensa nesse cargo? Quem é essa imagem mental? E, a partir disso, o que você vai fazer com isso?”
Esse painel foi um prato cheio pra quem quer entender os bastidores da indústria, especialmente do ponto de vista de duas mulheres que estão fazendo acontecer em meio aos grandes estúdios. Essas falas encerraram o encontro deixando uma mensagem poderosa: a transformação dentro da indústria depende muito de quem está nos bastidores, mas principalmente de quem está contratando, criando e decidindo. É sobre quebrar padrões — inclusive internos — e redesenhar o imaginário coletivo de quem pode ocupar esses espaços.
